quarta-feira, 1 de maio de 2019

Senna: mito ou marketing?

Senna: mito ou marketing?




Criada em 1950 com a união de seis Grandes Prêmios europeus (Reino Unido, Mônaco, Suiça, Bélgica, França e Itália), a Fórmula 1 é a categoria de automobilismo mais popular do mundo.
O primeiro brasileiro na modalidade foi o paulista Chico Lando, em 1951, mas o interesse dos brasileiros pela modalidade iniciou-se em 1972, com o primeiro título do país conquistado por Emerson Fittipaldi. Desde então, o Brasil conquistou mais sete campeonatos, 1974 com Fittipaldi, 1981, 1983 e 1987 com Nelson Piquet, e 1988,1990 e 1991 com Ayrton Senna.
A popularidade da Fórmula 1 no Brasil é tamanha que dela emerge aquele que para muitos é um dos maiores mitos da história do esporte, Ayrton Senna, tricampeão mundial, morto em acidente no circuito de Ímola, na Itália, em 1994.
Passadas décadas de sua morte, Senna segue considerado por muitos o maior piloto de todos os tempos. Há quem defenda se tratar de um dos maiores brasileiros da história ou o maior atleta brasileiro.
Mas o que faz de Senna, tricampeão como Piquet e contemporâneo do tetracampeão Alan Prost (seu maior rival) ser considerado um mito? Imprescindível compreender o contexto histórico do Brasil naquela época.
Após vencer as Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, de mostrar ao mundo certa superioridade que um país de terceiro mundo poderia conseguia ter, a seleção brasileira passava por longo período sem conseguir conquistar a Copa do Mundo.
Quando Ayrton Senna estreia na para Fórmula 1, em 1984, a seleção brasileira estava há 14 anos sem ganhar uma Copa. O Brasil estava há 20 anos em uma ditadura militar. Somente 1985 aconteceriam as primeiras eleições presidenciais diretas depois de duas décadas. 
Para a Presidência, Tancredo Neves foi eleito indiretamente, mas não chegou a tomar posse, pois morreu em 15 de março de 1985. A inflação galopava. O país, como nunca em sua história, precisava de ídolos e referências. 
O futebol não triunfava, a economia em gravíssima recessão e a política ia mal. O povo brasileiro sentiu a morte de Tancredo, e a crise de representatividade se instalou no país. 
Ayrton Senna da Silva, recém-chegado na Fórmula 1, desponta como personalidade capaz de preencher a lacuna de ídolos do povo brasileiro. 
Desde as categorias de base, Senna já contava com forte esquema de divulgação e clipping, e até visitava redações de jornais, o que era atípico. 
Já na Fórmula 1, foi o primeiro piloto a organizar coletivas nos autódromos de modo a não conceder intermináveis entrevistas individuais e, ao mesmo tempo, ter controle sobre o que dizia para não ser mal interpretado. Nessas coletivas, ficou famoso pelas longas pausas que fazia para medir as palavras. 
Quando Senna chega à Fórmula 1, a modalidade já era muito popular devido aos feitos dos brasileiros Emerson Fittipaldi, bicampeão mundial, e Nelson Piquet, primeiro piloto brasileiro a ganhar título e ser tricampeão mundial. 
As transmissões de Fórmula 1 para a TV só começaram a ser feitas exatamente na estreia de Fittipaldi na categoria, no Grande Prêmio da Grã-Bretanha, em Grends Hatch, no dia 18 de julho de 1970, pela RecordTV. A TV Globo passou a exibir o esporte somente no Grande Prêmio da Argentina de 1972.
No início dos anos 80 surge Nelson Piquet, até hoje reconhecido como um dos maiores pilotos de todos os tempos, tricampeão mundial e com expertise e didática em assuntos mecânicos, o que chamou a atenção da mídia nacional e internacional.
Então, por que Nelson Piquet não se tornou o grande herói nacional?
Ao contrário de Senna, Piquet não fazia questão de relacionar-se com a imprensa ou de se fazer simpático ao público.
No contexto, a maneira encontrada pela mídia para alavancar a audiência e fazer o brasileiro a se apaixonar pela Fórmula 1 foi a de consolidar um mito.
Assim,o talento e carisma de Ayrton Senna aliados somado aos interesses da Rede Globo e da mídia em geral foram fundamentais na construção do mito.
Seguramente, independentemente do marketing e da mídia, Senna seria um grande ídolo pelo seu talento e carisma. Mas, sem o relacionamento midiático com a Xuxa, as narrações icônicas de Galvão Bueno e o trabalho de marketing feito pela Globo durante a vida e, também, após a morte do piloto, ele dificilmente se tornaria um mito.
Atitudes como carregar a bandeira brasileira após as vitórias e, principalmente, dar voltas a carregando no GP da França de 1986, após a seleção de futebol ser eliminada da Copa do Mundo pelos franceses, davam ao piloto o estereótipo do Brasil que dava certo quando tudo no país (até o futebol) insistia em dar errado.
As corridas vencidas por Senna eram especiais para os brasileiros, como uma vitória do país. “Ayrton Senna do Brasil!”, gritava sempre o narrador e amigo do piloto Galvão Bueno nas manhãs de domingo. Além da bandeira brasileira e do capacete com as cores verde, amarelo e azul, Senna ficou marcado pelo “Tema da Vitória”, que toca nos triunfos brasileiros na Fórmula 1. 
O marketing midiático que fez de Senna um herói mítico era de grande interesse de seus patrocinadores, assim como da mídia, pois a exploração de sua imagem contribuía para o maior interesse pela Fórmula 1 e pelos altíssimos de audiência que as corridas com Senna acumulavam, importantes para manter a TV Globo, a emissora oficial das transmissões, atenta para o sucesso de Ayrton
Senna era o filho ou o genro que todo mundo queria ter: bonito, educado, evangélico e conservador. Além de tudo, bem-sucedido, tricampeão mundial, dono de recordes impressionantes. Responsável por levar o nome do Brasil para o mundo todo. Além dos feitos na pista, tinha o carisma de um líder, a competitividade e a raça de um herói e o discurso religioso que o aproximou do povo brasileiro. O mito é visto como um ser sobrenatural, de atividade criadora e sacralizante, realizando sempre modelos exemplares das atividades humanas. 
Ayrton morreu no auge da vida e da carreira em uma transmissão ao vivo para todo o mundo. Todo brasileiro sabe onde estava e o que fazia no momento do acidente. O herói passou ao limiar humano e tornou-se divino. 
Estimulado pela mídia, nos dias seguintes o Brasil parou para acompanhar o funeral do ídolo. Houve uma verdadeira santificação do piloto. O mito estava consolidado.
Esses fatores transforma em praticamente um herege quem ouse emitir a opinião de que Senna não foi o melhor de todos os temos. Invariavelmente, a Globo relembra os feitos do piloto.
De nada adiantaram os recordes quebrados pelo alemão Michael Schumacher, o piloto mais vencedor de todos os tempos, ou o pentacampeonato do inglês Lewis Hamilton, pois, para a mídia brasileira, Senna foi o melhor de sempre. Suas derrotas são justificadas como “roubos” assombrosos ou de superioridade absoluta e esmagadora da equipe vencedora.
Atualmente, jovens adultos que muito provavelmente nunca assistiram a uma corrida de Fórmula 1 já absorveram do inconsciente coletivo que o mito santificado Ayrton Senna é a o maior de todos os tempos.
Segundo o jornalista Edvaldo Pereira Lima, doutor em Comunicação Social pela USP:
“Ayrton Senna da Silva é, no jogo dramático da consciência coletiva brasileira neste final de século, a pessoa que – pelo alcance massivo de sua imagem e pelas circunstâncias de vida e morte – deu a contribuição mais valorosa para a mudança do padrão de autopercepção do brasileiro. Mais do que uma contribuição simbólica, seu desaparecimento desencadeou um processo energético extraordinário, evidenciando uma potencialidade que está imanente no povo. Filho do Brasil, carregava em si qualidades originais dessa terra, potencializadas a partir das sementes latentes em muito de nós. Com sua vida personificou um momento coletivo de abertura para a mutação de todos nós”. 
Na trajetória do mito Ayrton Senna, suas vitórias são triunfos e suas derrotas injustiças. Poucos sabem, por exemplo, que em 1988, o francês Alain Prost foi o melhor piloto da temporada ao marcar 105 pontos, contra 94 de Ayrton. Senna foi beneficiado pelo regulamento da época, que determinava o descarte dos piores resultados e, ao final, o brasileiro foi campeão com 90 pontos, contra 87 do francês.
Na temporada de 1989, Prost e Senna disputavam o título, mas o brasileiro precisava chegar na frente. O francês segurou a ponta perseguido por Senna por 46 voltas, até que Ayrton forçou uma ultrapassagem, Prost manteve a trajetória e os dois bateram. Alan abandonou a prova, Ayrton pediu para ser empurrado pelos fiscais, voltou à corrida e venceu o GP.
Entretanto, foi desclassificado por um erro básico para qualquer piloto de kart por cortar caminho na curva. Prost foi campeão.
Em 1990, no segundo título de Senna, em Suzuka, Japão, para Senna sagrar-se campeão por antecipação, bastava que o francês não pontuasse. Antes da largada, um repórter perguntou ao brasileiro sobre a possibilidade de se forçar um acidente para tirar Prost da corrida. Ao responder, o piloto brasileiro ameaçou agredir o jornalista. 
Minutos depois, na largada do GP do Japão, em 1990, Senna forçou uma ultrapassagem sobre Prost na primeira curva e houve choque. Os dois pilotos ficaram fora da corrida. Senna foi campeão. 
Na rivalidade entre Senna e Prost, a Globo criou uma sátira em que colocava o piloto francês como Dick Vigarista, sendo que havia um grande embate de ambos os lados, com Senna dando o primeiro golpe. No GP de Portugal de 88, o brasileiro espremeu acintosamente Prost contra o muro da reta principal.
A “guerra” foi declarada ali e teve sua explosão no GP de Ímola do ano seguinte, quando Senna tomou a liderança da prova logo após a largada, apesar de haver pacto na equipe para que não houvesse disputa na primeira volta. Isso porque a McLaren era muito mais rápida do que os outros carros e, por isso, Senna e Prost achavam melhor abrir vantagem primeiro para, só depois, disputar a liderança. 
Até mesmo a façanha de Senna em dar show e vencer em Interlagos somente com uma marcha nas últimas dez voltas foi repetida. Shumacher conseguiu o feito em 1994, no GP da Espanha, quando conduziu seu carro por 45 voltas apenas com a 5ª marcha e ainda fazendo dois pit stops em que parou e arrancou com uma única marcha.
Apesar de toda genialidade e habilidade de Ayrton Senna, o piloto tornou-se uma figura mítica muito mais pelo marketing, pela necessidade de o brasileiro ter um herói naquele momento histórico e pela trágica morte diante das câmeras do que pelos seus feitos e números como desportista.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS
BATISTA. Tatiana Alencar. VELAZQUEZ. Carlos. Rede Globo e Ayrton Senna: o papel da Rede Globo na mitificação do piloto. Trabalho apresentado na IJ03 – Relações Públicas e Comunicação Organizacional do XX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, realizado de 5 a 7 de julho de 2018.
FRANÇA R. Ayrton Senna e o jornalismo esportivo. 2006. Tese (Mestrado em Ciências da comunicação). Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São Paulo.
FRANÇA, Rodrigo. Ayrton Senna e a Mídia Esportiva. São Paulo: Automotor, 2010.

HELAL, R.; CATALDO, G. A Morte e o Mito: As narrativas da imprensa na cobertura jornalística da morte de Ayrton Senna. UERJ. Rio de Janeiro 

HILTON, C. Ayrton Senna: A face do gênio. ed.1. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1992 

LIMA, E. P. Ayrton Senna: guerreiro de aquário. ed.1. São Paulo:Brasiliense., 1995 

SENNA, Ayrton. O reforço do mito “Ayrton Senna do Brasil” no discurso da Rede Globo: Primeiras reflexões. 2004. Trecho de entrevista veiculada na transmissão do dia 17 de março de 2014 do Jornal Nacional, Rede Globo.

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